Segundo decanato de Escorpião (10°–20°)
O segundo decanato de Escorpião é a face do Sol no signo noturno de Marte, tendo Júpiter como regente da triplicidade através de Peixes. Traz luz e generosidade aos abismos de Escorpião: a força serena na escuridão, a confiança reconstituída, a memória honrada. A Golden Dawn atribuiu-lhe o Seis de Copas, o Senhor do Prazer, com duas crianças a partilhar flores num pátio antigo.
Uma lanterna descida às profundezas: a intensidade de Escorpião aquecida pelo Sol e suavizada pela boa-fé de Júpiter.
Dons
- Calor humano que sobrevive a provações duras
- Presença serena em momentos aflitivos
- Generosidade no tempo e na atenção
- Respeito sincero pela memória e pelas raízes
- Capacidade de reconstruir a confiança
- Perceção aguçada do que os outros ocultam
Sombra
- Ficar preso ao passado
- Idealizar ligações antigas
- Orgulho no sofrimento íntimo
- Intenções ambíguas sob capa de bondade
- Nostalgia que bloqueia mudanças
- Confiar sem critério após sofrer deceções
A face do Sol no centro de Escorpião
O segundo decanato de Escorpião cobre 10°–20° do signo, constituindo o cerne firme da água fixa. Na ordem caldeia, esta face pertence ao Sol. Na ordem da triplicidade, cabe a Peixes, o signo de água subsequente, e logo a Júpiter, assumindo Neptuno o papel de corregente moderno de Peixes. O Sol não possui outra dignidade em Escorpião, pelo que esta face é o seu único ponto de apoio no signo do segredo e das profundezas.
Esta combinação tem traços muito singulares. Escorpião, regido por Marte, lida com intensidade, crises e o que permanece oculto; o Sol aporta clareza e dignidade; Júpiter acrescenta confiança, clemência e visão panorâmica. A astrologia lê este decanato como uma luz levada aos abismos: alguém capaz de acolher a dor sem ser consumido por ela, que preserva o calor após ter sofrido e honra as memórias sem ficar subjugado por elas. O elemento água preserva a sensibilidade e a lealdade. O ponto vulnerável reside na nostalgia ou numa generosidade que esconde carências antigas.
O par despido e os dois cães em luta
Nos Três Livros de Filosofia Oculta (1533), Agripa atribui a esta face um homem despido e uma mulher despida, e um homem sentado no chão diante de dois cães que se mordem mutuamente. Interpreta-a como desvergonha, dolo, engano e fomento de discórdias entre pessoas. A lista de decanatos de Agripa deriva em grande medida do Picatrix e de fontes árabes, onde as faces de Escorpião concentram um peso idêntico de intrigas e confrontos.
A imagem afigura-se áspera, destoando à primeira vista da serenidade da carta do tarot. Vistas em conjunto, ilustram os dois polos do decanato. O par desprovido de roupas representa a exposição total, quem nada tem a esconder; os cães figuram a agressividade que eclode quando a confiança se desfaz. O homem sentado observa a cena a partir da terra. A Golden Dawn denominou o arcano correspondente Senhor do Prazer, a ternura da proximidade sincera. A imagem antiga retrata aquilo contra o qual essa intimidade procura resguardo, e a face do Sol funciona como o facho que permite distinguir cada realidade.
Um céu pintado sobre os mortos
Esta face integrou outrora os trinta e seis grupos estelares do relógio noturno egípcio, cujos nasceres helíacos ritmavam as décadas e as horas da noite. As listas variam entre monumentos, não havendo estrela egípcia que se possa relacionar com rigor aos graus de 10° a 20° do zodíaco tropical.
O papel funerário dos decanatos adequa-se a este segmento zodiacal. A partir dos tampos de sarcófagos do Império Médio, os egípcios colocavam o céu sobre os defuntos; esquifes posteriores e câmaras sepulcrais mostram a deusa celeste Nut curvada sobre o corpo com os decanatos a viajar ao longo de si. Pelo facto de declinarem, cruzarem o mundo subterrâneo e renascerem, os decanatos eram encarados como guias e protetores na passagem dos mortos. Na época romana, sarcófagos de Tebas reuniam Nut, os decanatos e o zodíaco grego num único firmamento pintado. Uma luz que vela na escuridão aproxima-se muito do modo como a astrologia lê a face do Sol em Escorpião. Podes ler mais sobre este tema na página dos deuses decanatos egípcios.
O Seis de Copas: o Sol em Escorpião
No sistema da Golden Dawn, este decanato corresponde ao Seis de Copas, o Sol em Escorpião, a que o Livro T dá o nome de Senhor do Prazer. A gravura de Pamela Colman Smith para o baralho Rider-Waite mostra duas crianças num pátio senhorial antigo; a mais alta oferece à mais nova uma taça repleta de flores brancas. Seis taças floridas circundam a cena, enquanto um sentinela caminha para longe ao fundo. A composição assemelha-se a uma memória de infância.
Lida em sintonia com o decanato, a carta mostra o Sol a aquecer as águas de Escorpião. O seis é um número de concórdia nos arcanos menores, e a alegria da lâmina é límpida: afeto partilhado sem cálculos, um laço de tempos idos mantido vivo. Os dois trunfos na raiz da carta são O Sol e A Morte, luz e encerramento, sugerindo renovação após a perda. Na tradição do tarot, o Seis de Copas evoca nostalgia, infância, amizades antigas e pequenos mimos, questionando que partes da memória nos nutrem e quais nos impedem de avançar.
O Sol ou planetas no segundo decanato de Escorpião
Com o Sol nestes graus, numa data por volta de 2 de novembro ao dia 11 ou 12 consoante o ano, tens o astro na sua própria face, a sua única dignidade em Escorpião. Podes combinar a profundidade e a intensidade do signo com um calor humano que transmite serenidade aos outros. Costumas manter-te firme em alturas difíceis e mostrar generosidade para com quem confias. A memória assume grande valor para ti: amigos de longa data, a história familiar, os lugares que te formaram. O ponto de evolução passa por honrar o passado mantendo a recetividade ao novo, e dar sem exigir que velhas feridas sejam ressarcidas.
Vários planetas reunidos nestes graus conferem ao mapa densidade emocional aliada a um traço afável e dedicado. Júpiter governa a sua face pela triplicidade e introduz confiança e bom humor à gravidade de Escorpião. As configurações aqui instaladas costumam dar excelentes frutos em relações de proximidade, cura, acompanhamento psicológico ou em papéis que tragam luz a zonas obscuras.
Como trabalhar com o segundo decanato de Escorpião
Retoma o contacto com alguém do passado cuja amizade valorizavas e repara se esse vínculo ainda te alimenta. Guarda uma caixa de memórias com cartas, fotografias ou pequenos objetos, revendo o seu conteúdo uma vez por ano para discernires o que estás em condições de desapegar. Quando alguém atravessa uma crise, pratica a presença atenta; a virtude desta face é a estabilidade nas trevas. Se lês tarot, coloca o Seis de Copas entre O Sol e A Morte e pergunta que tesouro do passado queres transportar para a frente. Oferece algo modesto sem que to peçam, tal como a criança da carta, e observa como te sentes ao partilhar de coração aberto.
Os planetas neste decanato
A face intermédia, 10°–20° de Escorpião, pertence ao Sol na ordem caldeia e a Peixes por triplicidade, regido por Júpiter e, nos mapas modernos, por Neptuno. É a face do próprio Sol, a sua única dignidade em Escorpião. A carta é o Seis de Copas, Senhor do Prazer, com crianças a trocar flores num pátio antigo. Um Sol nesta posição traz calor e generosidade a vivências interiores e pode transformar memórias difíceis em cumplicidade e cura. Os termos de Mercúrio até aos 19° conferem talento para compreender e nomear o que estava oculto.
A face intermédia, de 10° a 20° de Escorpião, pertence ao Sol na ordem caldeia e a Peixes, signo de Júpiter e de Neptuno nos mapas modernos, na ordem da triplicidade. O calor solar e a benevolência de Júpiter aquecem as águas fixas. A carta é o Seis de Copas, Senhor do Prazer, com crianças a trocar flores num pátio antigo. Uma Lua aqui encontra renovação na intimidade, na nostalgia e na reconciliação com memórias passadas. As figuras de Agripa com dois cães a morderem-se alertam para disputas. Os termos de Mercúrio dos 11° aos 19° acrescentam lucidez.
A face intermédia, dos 10° aos 20° de Escorpião, pertence ao Sol na ordem caldeia e a Peixes, signo de Júpiter e de Neptuno nos mapas modernos, na ordem da triplicidade. Os termos do próprio Mercúrio, entre os 11° e os 19°, coincidem com esta faixa, tornando este no decanato mais forte para Mercúrio em Escorpião. O Sol traz o oculto para a luz e Peixes introduz intuição. A carta é o Seis de Copas, Senhor do Prazer, com crianças a trocar flores num pátio antigo. Mercúrio aqui sonda a memória e o passado, descobrindo afeto a par de segredos.
A face central, dos 10° aos 20° de Escorpião, cabe ao Sol na ordem caldeia e a Peixes, domicílio de Júpiter e também de Neptuno na astrologia moderna, na ordem da triplicidade. O Sol ilumina as profundezas: Vénus aborda o afeto com sentido de dever e tino estratégico, infundindo Peixes a sua compaixão. Os termos de Mercúrio a partir dos 11° e os de Júpiter a partir dos 19° trazem perspicácia e generosidade. A carta associada é o Seis de Copas, Senhor do Prazer, onde crianças trocam flores num pátio ajardinado, símbolo da ternura e da memória afetiva que subsistem sob o ardor desta Vénus.
A face central, de 10°–20° de Escorpião, cabe ao Sol na ordem caldeia e a Peixes, signo de Júpiter e de Neptuno nos mapas modernos, na ordem da triplicidade. O Sol e Júpiter suavizam a couraça de Escorpião, e Marte canaliza a sua profundidade para a cura, a memória e a lealdade ao passado. A carta é o Seis de Copas, Senhor do Prazer, com crianças a trocar taças com flores num pátio antigo. Quem tem Marte neste decanato combate para preservar ou resgatar o que era valioso na infância.
A face central, de 10°–20° de Escorpião, pertence ao Sol na ordem caldeia e a Peixes, domicílio noturno de Júpiter e signo de Neptuno nos mapas modernos, na ordem da triplicidade. Júpiter corregenta este decanato e os seus termos começam a 19°. A carta associada é o Seis de Copas, Senhor do Prazer, com crianças a partilhar flores num jardim. Júpiter converte aqui memórias emocionais em generosidade, e o Sol confere-lhe calor humano. Os cães em disputa na descrição de Agrippa alertam contra discórdias e exigem integridade nas transações.
A face intermédia, de 10°–20° de Escorpião, cabe ao Sol na ordem caldeia e a Peixes, signo de Júpiter e de Neptuno nos mapas modernos, na ordem da triplicidade. Saturno adquire aqui feição compassiva e nostálgica, vinculado a memórias da juventude e ao passado. A carta associada é o Seis de Copas, Senhor do Prazer, com crianças a trocar flores num pátio antigo. Saturno pode sarar feridas através da memória neste intervalo, correndo o risco de viver apegado a tempos idos. Os termos de Mercúrio entre os 11° e os 19° outorgam lucidez psicológica.
A face do meio, de 10° a 20° de Escorpião, pertence ao Sol na ordem caldeia e a Peixes na ordem da triplicidade, regido por Júpiter e, modernamente, por Neptuno. O Sol ilumina as profundezas e Peixes ameniza a sua crueza; Urano encontra aqui compreensão através dos sonhos, da memória e da busca espiritual. A carta associada é o Seis de Copas, Senhor do Prazer, com crianças a trocar flores num pátio antigo. O passado surge aqui tanto como manancial de renovação quanto como ferida.
De 10° a 20° de Escorpião (nascimentos entre cerca de 1960 e 1966), a face pertence ao Sol na ordem caldeia e a Peixes na ordem das triplicidades: signo de Júpiter e o próprio domicílio moderno de Neptuno. Neptuno rege-se aqui a si mesmo como sub-regente, o que a astrologia relaciona com anseios místicos e psicadélicos. A carta é o Seis de Copas, Senhor do Prazer, crianças a partilhar flores num pátio antigo. A nostalgia e a inocência coexistem com a profundidade, e o sonho contempla o passado com a mesma intensidade com que encara o futuro.
O segundo decanato, 10°–20° de Escorpião, abrange os nascimentos do final de 1987 até 1991, o intervalo do periélio de Plutão. Nesta faixa, o Sol rege a face na ordem caldaica e Júpiter, através de Peixes, na ordem da triplicidade, com Neptuno como corregente moderno. A carta correspondente é o Seis de Copas, o Senhor do Prazer, onde crianças partilham flores num jardim. Este grupo revela-se idealista quanto ao trabalho interior, atraído pela cura e pela reflexão espiritual, manifestando por vezes nostalgia por uma inocência perdida.
Perguntas para refletir
- Que memórias ainda me alimentam e quais me prendem?
- A quem do meu passado gostaria de agradecer?
- Como conservo o calor humano depois de ter sofrido mágoas?
- O que ofereço de bom grado, e o que espero receber em troca em silêncio?
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